uma vez desaparecido o observador todas as coisas se despenham*

Havia uma janela e depois uma rua. E depois de mesas a imitar madeira e usos antigos havia um velho e uma criança e uma mulher bela de ombro aberto e a luz de dias vivos. Havia um café que se voltava para a rua. Era a cidade no café ao balcão e o cálculo do comércio do dia, pela manhã e, à noite, a adivinhação dos incêndios de que se alimentam os versos ansiosos e até os movimentos de um coração impaciente. A Pastelaria Cister, Lisboa e Washington e Bruxelas, o mundo!, aos tropeções.
Quieta e submissa trocou-se da Rua da Escola Politécnica inclinando-se para um televisor uniformemente liso pendurado à entrada para a casa de banho.
Não é lamentável quando se perde alguma coisa. Apenas triste.


*António Franco Alexandre,
Dos Jogos de Inverno

| joão amaro correia | 29.1.09 |   | / /

architectural compass


[Learning From Las Vegas, Robert Venturi, Steven Izenour, Denise Scott Brown, 1972]

| joão amaro correia | 27.1.09 |   | /

learning from alcochete#2

Como deves calcular, António, esta foi uma pouco inocente blague à volta da actualidade política, cultural, arquitectónica e ética, num tema que está na moda e sendo graça coube-me o gesto de te homenagear no teu “gosto” pelo Bob Venturi.
Dizes bem do Learning From Las Vegas como manual de uma certa “openness” do olhar do arquitecto sobre o mundo. É, sem qualquer dúvida, uma das mais bela lições do séc.xx – até no feio poderemos encontrar o bonito, tenhamos olhos para o poder olhar. E transformar. Transformar parece-me a palavra chave desta leitura. Transformar o banal, o feio, o pouco virtuoso, (sim, isto é também uma questão de moral), resignificando-o, em qualquer coisa de belo, único, bom. Todo um programa estético e ético, se porventura a estética não é já matéria ética. Ou de vida.
Tecnicamente até poderemos traçar o paralelo entre o dito alçado com aquelas evocações de velas, com a decorated-shed. Não é aquela estrutura espacial submetida a uma ditadura do programa e depois ornada com a dita metáfora fluvial? Por outro lado, e com um bocadinho de esforço, até poderemos encontrar aproximações da duck-shed com aquelas arquitecturas – e julgo estar a ser generoso no qualificativo daquelas atrocidades culturais como “arquitectura”. Ora, é aqui, neste preciso ponto, em que os architectural systems of space, structure, and program are submerged and distorted by an overall symbolic form, ali Zona de Protecção Especial do Estuário do Tejo, que nos detemos em perplexidade. E depois atravessamos a ponte na verificação de que symbolic form é aquela. E aqui, o pequeno ponto, é já um território vasto de perturbação. Se me é permitido, a questão que se coloca aqui é já ideológica e política. Que symbolic form é aquela e o que é que representa? O que é aquele derrame de nostalgia ruralizante e que valores apresenta e, orgulhosamente, desejará propagar? Enfim, que mundo ali se propõe?
As lições equívocas do Estado Novo a propósito de uma arquitectura popular portuguesa, unívoca e unitária, ainda moram no subconsciente do nosso “mercado” - não esqueçamos que lidamos com o mercado da indústria da construção civil e com o mercado cultural. O “gosto” ali proposto, o mundo ali ostentado, com todas as implicações ideológicas em que incorra, é um mundo fascizante. Perdoe-se-me a força desta palavra mas não se encontra outra para exprimir a carga retrógada, obscurantista, inculta, manipuladora – em sentido ideológico -, revestida num glamouroso e leviano embrulho de “modernidade” e “cosmopolitismo”. Para além do equívoco cultural e arquitectónico que ali se exibe o facto pernicioso que se deverá assinalar é o carácter reaccionário do complexo comercial.
Não é “apenas” a disneylandização do mundo, nem a espectacularização do quotidiano, como referes. Muito para além dessa Las Vegas global, tardo-capitalista, (Las Vegas será aqui um equívoco, pois a sua génese é “popular” e não corporativa), é uma construção que nos permite interpretar um momento exacto da sociedade portuguesa. Provavelmente será isso que nos assustará. Isso e a demissão da arquitectura de qualquer tentativa – tentação – crítica, mas a isso parece que já nos habituamos no nosso “viver habitualmente”, (revisto e aumentado, naquele pedaço de arquitectura).

Sabiamente as “grandes corporações globais” aproveitam estas “modas” do “gosto” local. Não se lhes exigirá uma “moral”, como parece ser moda no novo discurso anti-liberal. O que afirmo é que o ADN arquitectónico do Freeport é, na sua essência, português e contemporâneo. Desgraçadamente Salazar e António Ferro deverão estar a rir-se do outro lado.

| joão amaro correia | 25.1.09 |   | / /

learning from alcochete

duck

1. Where the architectural systems of space, structure, and program are submerged and distorted by an overall symbolic form. This kind of building-becoming-sculpture we call the duck in honor of the duck-shaped drive-in, “The Long Island Duckling”, illustrated in God’s Own Junkyard by Peter Blake.




decorated shed


2. Where systems of space and structure are directly at the service of program, and ornament is applied independently of them. This we call the decorated-shed.


[Robert Venturi, Denise Scott Brown, Learning From Las Vegas, 1972 + Freeport, Capinha Lopes e Associados, Alcochete]



para o António

| joão amaro correia | 24.1.09 |   | / /

there may be nothing to do but wait and pray


Severe architectural recession on the one hand, grotesque architectural luxury on the other.

O Bilbao Effect e a recessão.

[Palazzo Versace Dubai]

| joão amaro correia | 19.1.09 |   | /

each city is an archetype rather than a prototype*

- Excuse me, where can i buy the newspaper nearby?
- There's a store there, when you turn left but I don't known if it's still open, it's after 1pm.
- Oh!, i see, this is not really a metropolitan city.
- Yes, that’s one of our problems.


Praça das Flores, 17.01.2009

* Robert Venturi & Denise Scott Brown, Learning from Las Vegas

| joão amaro correia | 17.1.09 |   | /

simpsonized Frank Lloyd Wright


[The Simpsons, II Série, Episódio 15]

para o Lourenço

| joão amaro correia | 12.1.09 |   |

arquitectura em Helsínquia

- Queres ir a algum lado este fim-de-semana?
Paris, Roma... Para mim, tanto faz.

- Decide tu.
As cidades são todas iguais.



O que Mirja diz, “as cidades são todas iguais”, não é inocente. Habita em Helsínquia uma arquitectura igual à de Tóquio, Paris, L.A., ou Roma. Uma arquitectura de reflexos das marcas comerciais no vidro brilhante dos “volumes” de exaltação tecnológica e económica. No hiper-modernismo de Helsínquia, (Tóquio, Paris, L.A., ou Roma), a torre de aço e vidro substitui-se à torre de marfim, de onde se desce apenas por algum infortúnio acaso.
O “superfuncionalismo” capitalista estende-se a todos os domínios. O mundo trivializa-se sem qualquer sentido transcendente, abolem-se fronteiras entre interior e exterior, definem-se identidades a partir do consumo. A arquitectura mediatiza-se e é mediatizada como mais um objecto de consumo, indiferente ao contexto geográfico, topológico ou físico ou histórico.
O “modelo finlandês”, do bem-estar e do desejo democrático, (a transparência do Tribunal, da administração do poder, as ruas limpas e civilizadas, os cafés asseados e agradáveis), do brilho ostensivo da contemporaneidade envidraçada, transporta-nos para uma cenografia irreal e obscena, onde a memória colectiva, que também configura as cidades, é traficada pela uniformização da realidade.
Se a experiência primária da modernidade eram as cidades, hoje, estas perderam para o ar condicionado que torna o aço e o vidro suportáveis.


[Luzes no Crepúsculo, Aki Kaurismäki, 2006]


nas margens da arquitectura

Descer da torre é entrar nas margens. Não por acaso, na digressão de M. (assim, apenas uma inicial, sem nome e sem número e sem memória de si mesmo), os lugares mais próximos da inclusão na sociedade do bem-estar são as estações ferroviárias, lugares de trânsito apenas, (quando violentamente perde a memória; quando começa a regressar a si; quando se apaixona), como se a memória fosse o ponto de partida íntimo do que somos, indivíduos e sociedade.
M. habita uma comunidade de contentores alugados, qual real estate, explorada por um senhorio ganancioso e à margem de qualquer lei ou justiça. A cidade é um eco distante, um contra-campo remoto, para onde a perspectiva das personagens e da câmara conflui. A dicotomia é entre a cidade e baldios. Entre a cidadania e nem o próprio nome poder proferir.
Ainda que parte de uma sociedade que concretiza o ideal de justiça social e prosperidade, M. representa as margens dessa sociedade. Uma condição que não o resigna. Uma condição em que nos apercebemos definitivamente que o direito de cidadania é coincidente com o direito à cidade.

[O Homem sem Passado, Aki Kaurismäki, 2002]


Em qualquer um destes dois filmes é excluída da manipulação, quer do espectador, quer das personagens, para efeitos de alguma declaração política ou ideológica. Antes, Aki Kaurismäkim faz uso de algum humor sardónico na exposição das estórias e da sociedade finlandesa. Em vez da demagogia, o humor. Amor.

| joão amaro correia | 11.1.09 |   | / /

fenomenologia da marquise#2

Définition du mot :
marquise

Nom féminin singulier
femme d'un marquis
(architecture) auvent vitré qui protège de la pluie
(joaillerie) bague à chaton oblong
fauteuil à deux places
(pâtisserie) gâteau voisin de la charlotte

Le Dictionnaire



marquise | s. f.
marquise

do Fr. marquise
s. f.,
varanda ou compartimento envidraçado.



Cultura pode até ser descrita simplesmente como aquilo que torna a vida digna de ser vivida.

T.S. Eliot, Notas para uma Definição de Cultura



mariazinha, deixa-me desmanchar a tua marquise!


António Machado




As marquises serão o último reduto de apropriação do espaço e da arquitectura por parte de quem os habita. Da teia legislativa que hiper-regula a construção de um edifício singelo – mas deixa ao abandono a pressão especulativa dos promotores – à paupérrima cultura da maior parte do edificado; da vontade indómita do arquitecto pressurosamente ilustrado, ao remedeio civilizacional do promotor e construtor, sobra para o habitante uns quantos metros quadrados de liberdade.
A arquitectura, também como escolha política, porque divide o espaço de maneira consequente com determinada representação do mundo, será sempre o lugar do desejo.
Depois de uma compartimentação tipológica minuciosamente detalhada para um quotidiano distraído, burocraticamente administrado pelo RGEU e economicamente subordinado às “mais-valias” do promotor, a varanda expia o mal-estar de uns poucos de restos do dia-a-dia. Um pequeno, mínimo, escritório que ali se poderá montar, um sítio, finalmente, para as máquinas que a produção capitalista “inventa” para facilitação da vida – e da alimentação da própria produção capitalista – que, não sendo “bonitas”, - uns monos brancos com uns buracos a meio - se recolhem aos 2,5m2 excluídos da perspectiva da sala ou da cozinha e que destoa na fotografia da auto-representação do habitante. E na cultura do quotidiano apressado elide-se o desejo de “ir para a varanda” [cf. série “Vamos hoje para a varanda?” de Maria Inês de Almeida no Corta-Fitas], o desejo de um momento em que a domesticidade e privacidade do interior da casa poderá encontrar-se com a atmosfera da cidade, sem perda do recolhimento e da privacidade.
O caso da marquise ultrapassa a questão estética, ética e moral. A marquise não é boa nem má. Não é bonita nem feia. Será apenas um constrangimento(quase) existencial. Quando as necessidades, mesmo as mais ínfimas, da vida não encontram lugar na arquitectura. Ou quando a arquitectura não seja capaz de se abrir à vida.

Dessa abertura disse-nos Alvar Aalto: I see it as a very positive manifestation that the artist is in a sense denying himself by going outside of his traditional sphere of work, that he is democratizing his production and bringing in out of a narrow circle to a wider public. The artist thus steps in among the people to help create a harmonious existence with the help of his intrusive sensibility, instead of obstinately upholding the conflict between art and non-art which leads to acute tragedies and a hopeless life. [Sketches, Alvar Aalto].
E Manuel Tainha, provavelmente em evocação à marquise da Brandoa, no Cais-do-Sodré:


[Agência Europeia de Segurança Marítima/Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, Manuel Tainha, Lisboa]

| joão amaro correia | 9.1.09 |   | / /

fenomenologia da marquise


[Av. Almirante Reis, Lisboa]

| joão amaro correia | 5.1.09 |   | /