17.5.08
16.5.08
o visível e o invisível

Seis católicos, austríacos, falam para a câmara como se se dirigissem a Deus. Ou falam com Deus divididos pela câmara.
Um a um, os crentes percorrem o caminho até ao altar - o lugar de Deus ou da câmara? - e rezam. De fora da igreja apenas breves takes da vida exterior de cada um deles. Dentro da igreja, Jesus é o confessor, o amante, o psicólogo. Que não se vê.
A câmara minimalista é omnipresente e revela a angústia emocional das seis vidas. Não sem algum incómodo para o espectador, que permanece na dúvida: “Ninguém sabe das minhas angústias como Tu”, diz a mulher de meia idade em confidência assombrada pela presença da câmara.
Nas igrejas vazias, mais vazias que nunca, resta o indivíduo, sozinho, no desespero da busca de uma maior realização nas suas próprias experiências humanas.
Imperceptivelmente, no espaço vasto e vazio frente ao altar, cada um dos seis é quase como uma peça no décor que é a igreja. Através de uma visível correspondência entre o modo como cada um se dirige a Jesus – à câmara? - e a qualidade espacial de cada uma das igrejas.
No fim volta-se ao início e permanece a dúvida, debaixo da severidade da câmara e da densidade íntima e confessional do que se ouve e se vê, se tudo não passou de um entretenimento cínico do realizador, na ambiguidade entre a câmara e Deus e o que se diz pelo meio.
[Jesus, Du weisst, Ulrich Seidl, 2003]
Com especial agradecimanto ao David Fonseca.
14.5.08
banlieusation
Para além da estética, do marketing, da polémica, aquém da política e depois da sociologia, da antropologia ou da psicologia, sigamos pelo espaço (público) da digressão bárbara.
Do subúrbio à cidade, da cidade de regresso aos baldios de depois do subúrbio.
Metro, boulot, dodot?
[Stress, Justice, 2008]
Beauty is now underfoot wherever we take the trouble to look.*

Robert Rauschenberg, 1925-2008
Canyon, 1959
*Merce Cunningham
13.5.08
around the block
TENHO VINDO A ASSISTIR, nos últimos tempos, a sinais preocupantes que começaram a fazer algum sentido com a apresentação pública, no pretérito dia 3 de Março, de cinco projectos de arquitectura visando toda a área urbana que sobe do Parque Mayer até à Politécnica e edifícios anexos, passando pelo Jardim Botânico, essa jóia da biodiversidade vegetal vinda, há muito, de todos os cantos do Mundo. Pelas imagens e pelo discurso de alguns dos projectistas, fiquei com a ideia de que, em benefício de uma indústria e especulação imobiliárias, envolvendo muitos e muitos de milhões de euros, o Museu Nacional de História Natural (MNHN), muito mais do que beliscado, poderá ficar seriamente amputado, não só no seu mais que limitado espaço, mas também nos seus legítimos e justificados propósitos de desenvolvimento.[...]
A. M. Galopim de Carvalho
Labels: cidades, lx, portugal pós-moderno
11.5.08
moments of grace: find meaning through light

[Brief Encounter, Gregory Crewdson, 2006]
Para a querida amiga Nancy Diniz.
Harmonia e leveza triunfantes*

A colecção de imagens que Pina Bausch e os bailarinos do Tanztheater Wuppertal recolheram em Lisboa, mas não só, foi o pretexto para a construção de um espectáculo luminoso, de uma harmonia e de uma leveza triunfantes. Masurca Fogo, o espectáculo que foi anteontem estreado no Centro Cultural de Belém em Lisboa, no âmbito do Festival dos 100 Dias da Expo’98, está distante da densidade dramática de obras anteriores da coreógrafa, como Viktor ou Palermo, Palermo, onde o mundo era representado como um lugar de um peso, de uma desolação e de uma solidão insustentáveis, para dar apenas exemplos de obras que foram construídas a partir do mesmo modelo de Masurca Fogo: Pina Bausch e a companhia realizam um workshop na cidade que o espectáculo acaba por “reflectir”, mas de forma transversal, a fim de recolherem imagens que constituem as suas fontes inspiradoras.
Em Masurca Fogo não é só o universo de representação de Pina Bausch que se transforma. Por um lado, o lugar de primazia dado habitualmente aos movimentos realizados em coro é agora atribuído aos magníficos solos que se sucedem ao longo da peça, dançados por corpos que se precipitam da rocha aveludada que constitui o cenário, ou que dançam envoltos pelas imagens projectadas de uma viagem, do mar ou de flamingos. Estas imagens moldam-se tridimensionalmente aos recortes do espaço de cena, criando-se um impressionante efeito de fusão entre as imagens projectadas e os movimentos dos bailarinos. Por outro lado, os movimentos coreograficamente muito virtuosos — alguns deles, sobretudo os dos homens, são mesmo atléticos, como os dançados ao som dos tambores de Rui Júnior — ganham espaço e tempo às secções onde a expressão do corpo se socorre de outros elementos de teatralidade, como a voz, a representação, o gag.
Sabendo-se que as diferentes fisicalidades e experiências vividas dos bailarinos são transportadas para as peças de Pina Bausch, através de improvisações temáticas realizadas durante o processo de criação, e tendo a companhia sido recentemente renovada, sendo agora constituída por um grande número de bailarinos jovens, não será arriscado afirmar-se que estes também terão contribuído para estas transformações. Mas os métodos de construção — a fragmentação do tempo, do espaço, das referências sonoras e das acções e a sua subsequente sobreposição —, assim como a alternância de momentos intensos que representam experiências humanas e de situações descontextualizadas e caricaturas que criam momentos de humor, ou a genial concepção dramatúrgica, fazem de Masurca Fogo uma peça com a assinatura inconfundível de Pina Bausch.
O que é verdadeiramente inesperado em Masurca Fogo, se bem que já tenha vindo a ser esboçado em peças recentes da criadora, é que a relação tensa e difícil entre homens e mulheres dá lugar a um encontro intensamente harmonioso representado através da própria dança, sobretudo na segunda parte da peça. A linha de pares que, na primeira parte, serpenteia no palco ao som de uma morna desenvolve-se, no final do espectáculo, em fortes abraços e desfaz-se com os corpos, dois a dois, deitados serenamente uns sobre os outros. Bausch foi buscar estas imagens da dança a Cabo Verde e ao Brasil. Antes, as imagens filmadas de um concurso de dança — Dança Cabo Verde, edição 96 — enquadram o movimento de dois pares no palco. De repente, quando outros pares salpicam a plateia com o seu lento rodopiar, nós, espectadores, sentimo-nos também envolvidos no espectáculo. Noutra secção, os bailarinos constroem uma exígua barraca e, no seu interior, dançam ao som de valsas brasileiras.
Mas se esta harmonia luminosa é dominante, sendo reforçada pelo cenário branco e pelo desenho de luzes que em muitos momentos propaga uma intensa claridade — sobretudo durante alguns solos ou movimentos dos homens em grupo, como a secção das corridas —, a solidão e a nostalgia acompanham também os “habitantes” de Masurca Fogo. Logo no início da peça, uma mulher (Ruth Amarante), cujos suspiros incessantes são amplificados por um microfone, é deitada, sem reagir, sobre o corpo de um homem. Ouve-se cantar: “I feel so sad”. A nostalgia dança-se ainda em alguns solos de fluido esbracejar, como os interpretados por Dominique Mercy ou Beatrice Libonati (dois dos intérpretes mais antigos da companhia) sobre fados de Alfredo Marceneiro e de Amália Rodrigues.
A incomunicabilidade entre os homem e as mulher — um leitmotiv bauschiano — exprime-se também em Masurca Fogo, se bem que de forma mais leve, quase brincalhona: um homem e uma mulher, colocados frente a frente, empurram a cara um do outro com um brando safanão; um rapaz diz a uma rapariga que gosta dela, mas esta foge, depois a situação inverte-se, e quando finalmente revelam o desejo mútuo de se beijar, não são capazes de o fazer.
Outros temas caros a Pina Bausch, como os jogos dos adultos-crianças — a cena em que o rapaz vê as suas traquinices boicotadas por outro que o persegue, ou a cena em que várias pessoas nadam dentro de um plástico gigante — cruzam-se em Masurca Fogo com outras hilariantes paródias aos rituais cerimoniosos — quando um romântico par faz um brinde com champanhe partem-se as bases das taças; um homem despeja a água e as flores de uma jarra sobre a saia de uma mulher — ou aos comportamentos de alienação, como quando três comensais e um par de dançarinos ficam suspensos face a um televisor.
Em Masurca Fogo, Pina Bausch sobrepõe imagens recolhidas em Lisboa, ou melhor, Portugal, a outras captadas em Cabo Verde. Imagens filtradas pelo seu olhar e pelo dos seus bailarinos que nos são devolvidas num espectáculo de uma intensa luminosidade que ficará registado para sempre na nossa memória. Em fragmentos, secções, que se alinharão em ordem diferente ou se sobreporão.
* Crítica de dança publicado no jornal Público, a 13 de Maio de 1998.
Maria José Fazenda
9.5.08
a vida que imita a arte

[Metropolis, Fritz Lang, 1927]

[Linked Hybrid, Steven Holl, Pequim, 2003/...]
Labels: critic clinic, kinéma, nodu, press
‘this things on stage are very real’
we just started and we tried.to tried to find something.
[o set não existe por si próprio. é para os actores contarem uma história.]
free of meaning.
just a struggle to find something, to create something.
openness – to give space
openness – to see whatever they want to see
openness – raising questions

to not know: it hurts to be able live unsure. to grab, to scratch.
the day one think that one think that one knows how something work, one should stoop doing it.
[Peter Pabst, cenógrafo, designer, 8.5.2008]
8.5.08
o corpo (homem & mulher) e a cidade
[Masurca Fogo, Pina Bausch, 1998]
Com especial agradecimanto à querida amiga Maria José Fazenda.
6.5.08
evento, programa, movimento, sequência
A materialidade do meu corpo coincide e combate a materialidade do espaço. O meu corpo traz consigo propriedades espaciais e determinação espacial: acima, abaixo, direita, esquerda, simetria, assimetria. Ele ouve tanto quanto vê. Desdobrando-se contra as projecções da razão, contra a verdade absoluta, contra a Pirâmide, aqui está o Espaço Sensorial, o Labirinto, o vazio. Deslocado e dissociado pela linguagem, cultura, economia, para dentro dos guetos limitados do sexo e da mente, [...] aqui está onde o meu corpo tenta redescobrir a sua unidade perdida, as suas energias e impulsos, os seus ritmos e fluxos.
cf. Bernard Tschumi, the Manhattan Transcripts Associator
[Le Saut dans le Vide, Yves Klein]
atmospheres
Kiosk 2008The installation is a three minute experience of sight, hearing, smell and touch with an arbitrary selection of atmosphere. The object itself has a pop and comic book - like image, suggesting the Red Telephone Box in a subtle way. The experience inside the kiosk is a synthesis of sensorial aspects of the four atmospheres, stimulating the visitor senses with distant landscapes features. The decomposition of the multiple aspects of landscape is also a challenging – though extremely difficult to achieve - analytical exercise. Kiosk 2008 is about our perception of the world and the correlations we establish. The contribution of an urban characteristical element - such as the Red Telephone Box - to the character of a city is parallel to the importance of natural phenomena to the identification of a landscape.
Labels: blogs
4.5.08
inconsciente colectivo
[...]Mas nem por não se ter qualquer solução a curto prazo, a sociedade, nós todos, devemos deixar de olhar para cada um destes desempregos colectivos de mulheres sem a preocupação de vermos e sentirmos a devastação que ele tem por trás, o atraso social que isto significa para Portugal. Estas mulheres não vão educar os seus filhos da mesma maneira, vão reproduzir melhor o Portugal antigo do que preparar o novo. Elas sentem que falharam, tinham algumas ilusões que perderam. Mas nós falhamos mais se não temos a consciência de fazer alguma coisa. Porque se pode, na acção cívica, no voluntariado, no mundo empresarial, na política, fazer muita coisa por estas mulheres. O que é preciso é vê-las e à sua condição e não as cobrir com o manto diáfano da inevitabilidade. A começar pelo Governo, que mais uma vez se vai voltar para o betão e não para as pessoas.
José Pacheco Pereira, Público, 03.05.2008
Labels: blogs, portugal pós-moderno, press
2.5.08
cidade sucata, ou o afã dos deslumbrados engenheiros das vias [do progresso]
[...]Até hoje, a vasta maioria das obras (megalómanas) foram sempre para benefícios dos não-lisboetas e pagas com os recursos da câmara dos lisboetas. É absurdo mas é verdade.
Durante os últimos decénio, os recursos da Câmara Municipal de Lisboa, o dinheiro dos lisboetas, foram para fazer viadutos, túneis e parques de estacionamento subterrâneos para que os não-lisboetas entrassem na cidade e estacionassem, o mais confortavelmente possível. O dinheiro dos lisboetas tem sido usado para tornar a vida dos próprios lisboetas num inferno.
Vejamos. Auto-estandartizou-se a grande maioria das avenidas: a Av. da Liberdade, a 24 de Julho, a da República, o Campo Grande, a Gago Coutinho... Transformou-se em campo de batalha a circulação nas várias praças e rotundas da capital. Lembremo-nos do que era o Saldanha, do Marquês que está como está, do Largo do Camões, do que deveria ser o Areeiro, da rotunda de Entrecampos, etc. [...]
Tudo isto para facilitar a entrada em Lisboa de cada vez mais carros, causando mais poluição e mais custos de congestionamento a quem cá vive.
[...]
Luís Campos e Cunha, Público, 2.5.2008
28.4.08
publicidade institucional

O Tintas e Pintas dedica-se a criar espaços únicos que tornam o seu mundo mais colorido. Pintamos paredes e móveis com sonhos e cores de quem nos procura. No Tintas e Pintas cada cantinho é especial e único.
Susana Fonseca & Dina Fonseca
joão amaro correia | 20:28 |
27.4.08
& all those moments will be lost in time, like tears in rain

Depois da arquitectura, da dispersão tecnológica, do film noir do detective herói e da femme fatale – femme ex-machina – na procissão do amor entre ruínas, resta a impureza da memória e a vergonha da morte. Sempre antes do tempo.
[Blade Runner, Ridley Scott, 1982]
18.4.08
16.4.08
13.4.08
9.4.08
cinemaXarquitectura

La angustia del individuo, la perturbación absoluta que puede subyacer o emerger de entre las apariencias estables de lo cotidiano, el ataque a las seguridades basadas en la concepción plenamente racional de la realidad son la materia de la obra hitchcockiana. Imaginar y construir una narración situada en unos lugares visualizados según una concepción espacial no determinada por unos parámetros estilísticos, sino por la sustancia de la comprensión que todo edificio y espacio posee, una dimensión psicológica y simbólica, es un acto arquitectónico. Construyendo realidades diegéticas, donde el significado de la arquitectura, el espacio, las organizaciones y atmósferas de los lugares habitados, que, en su presentación visual poseen un énfasis expresivo, una fenomenología propia y bien diferenciada, Alfred Hitchcock se transforma en arquitecto; indudablemente, de la misma manera en que Piranesi con el dibujo o E. Hoffmann en la literatura lo son. Hitchcock es el constructor de una poética tétrica y claustrofóbica del espacio.
Marco de significado. El cineasta comprendía la arquitectura como "el gran y eternamente provisional marco del significado humano". Su sensibilidad casi obsesiva hacia ella como escenario de la vida da a entender las razones de la profunda y compleja trascendencia que adquieren los decorados y localizaciones en sus filmes -a veces, subordinando a los actores al protagonismo e intensidad visual de éstos-. Las impecables construcciones visuales de espacios interiores y la relación con el entorno urbano de los personajes en sus películas están imbuidas de una dimensión psicológica que, aun concebidas como una prolongación simbólica del personaje que ocupa o percibe dicho espacio, poseen valor como expresión visual de estados psíquicos humanos.
Partiendo de la comprensión que esta sensibilidad y capacidad visual para indagar y revelar aspectos sobre la complejidad de las dimensiones conceptuales de la experiencia arquitectónica hace de Hitchcock un arquitecto, el historiador del arte Steve Jacobs corrobora a través de su ensayo The Wrong House (010 Publishers) a Hitchcock como un intérprete visual de la concepción moderna del espacio arquitectónico.
Clímax urbano. Jacobs realiza concienzudos análisis de los aspectos dialécticos contenidos por las arquitecturas que intervienen en cada una de sus películas, incluyendo los planos de las viviendas donde transcurren sus diferentes filmes -algunas tan icónicas como la Mansión Bates de Psicosis-, analizando como rasgo distintivo de su estilo el situar escenas de gran clímax en edificios o localizaciones urbanas emblemáticas. Indica asimismo que algunas de las más cruciales cintas del director discurren en un único escenario y que su construcción a partir de recursos fílmicos debe ser igualmente entendida como evidencia de su capacidad magistral para imbuir de una fenomenología arquitectónica a la imagen cinematográfica.
Hitchcock debutó en el cine como director artístico y, aunque posteriormente no fuese él el creador directo de las arquitecturas y atmósferas interiores de sus películas, sino los diferentes directores artísticos que colaboraron con él, recalcó persistentemente la importancia crucial de su tarea: "Un director artístico debe tener un conocimiento y comprensión amplia de la arquitectura. Debe ser capaz de distinguir entre lo que caracteriza un tipo de alojamiento y lo que individualiza a los habitantes de dicho alojamiento", escribiría al respecto.
Jacobs recalca la decisiva importancia que para Hitchcock constituyó su experiencia profesional como director artístico en filmes mudos alemanes de los años 20, donde asimilaría los conceptos del caligarismo y del Kammerspielfilm. Del primero adoptaría las sombras, espejos y paisajes oscuros para poner en escena un mundo físico oscuro, angustiante y violento, reflejo de un estado psíquico enfermo; del segundo, la meticulosa atención al detalle con que se retrataba la vida de individuos comunes en entornos cotidianos opresivos. Ambos influirían en su concepción del decorado cinematográfico como un espacio objetivo y realista imbuido de la dimensión subjetiva de los personajes.
El potencial de la imagen. De igual modo, aunque éste sea un aspecto en el que Jacobs no se adentra en su análisis, es posible que fueran influyentes sobre Hitchcock en ese mismo periodo las teorías que argumentaban eufóricamente el potencial de la imagen cinematográfica como nuevo territorio donde concretar visiones arquitectónicas radicales, poderosas impresiones visuales que provocaran una experiencia emocional netamente diferenciada por su intensidad de las de la "realidad".
La imagen hitchcockniana crea un espacio que deliberadamente se distancia de la realidad, no sólo del espectador, sino incluso a menudo de los individuos que ocupan dicho espacio: la esencia potente de la imagen y la narración fílmica como cauces de la experiencia arquitectónica creada. El decorado en los filmes de Hitchcock es un laberinto en el cual todos -personajes, director y público- se extravían y se encuentran a sí mismos en la intensidad de sus emociones, escribe el crítico Pascal Bonitze, citado por Jacobs.
La Historia de la Arquitectura no debe abarcar únicamente la Historia de los edificios construidos, ni la de los no construidos diseñados por prominentes arquitectos. Incorporar a Alfred Hitchcock a esta Historia, algo que se hace posible a través de ensayos como The Wrong House, se hace indispensable para desliteralizar la imaginación de los arquitectos, sumidos hoy en la contemplación y asimilación de imágenes vanas de arquitectura y en la autorreferencia dentro de la disciplina. Alfred Hitchcock logró la construcción de imágenes arquitectónicas arraigadas en lo arquetípico. Como individuo dotado de una específica forma de sensibilidad arquitectónica, reflexionó sobre la naturaleza esencial de lo arquitectónico, que viene dada por la construcción y experiencia del espacio. No solamente el espacio material, sino también la esencia filosófica del término «espacio» en contacto con la psique humana.
Énfasis del objeto. Su aportación resulta fundamental más allá de la cinefilia, puesto que permite abrir una reflexión sobre el significado de la arquitectura, un término que se encuentra rozando un proceso de denostación provocado por el énfasis en el objeto. La reflexión sobre esa dimensión esencial e inmaterial del poder del espacio a la que nos conducen los fotogramas de las películas de Alfred Hitchcock tal vez nos sitúa ante una definición que sublima auténtica complejidad y belleza de la arquitectura, exponiendo la necesidad de un vínculo profundo entre ella y el individuo. Una visión arquitectónica que fue construida en la mente de un no-arquitecto.

Fredy Massad & Alicia Guerrero Yeste
estrada nacional#16

Todos iguais. Todos diferentes.
[Alcochete, autor desconhecido]
Labels: cidades, estrada nacional
1.4.08
18.3.08
estrada nacional#15
Mas eu amo este país mais do que todos os outros,Tanto é que aqui estabeleci a minha morada.
Ovídio
La zonage, en tenant compte des fonctions clefs: habiter, travailler, se récréer, mettra de l’ordre dans le territoire urbain. La circulation, cette quatriéme fontion, ne doit avoir qu’un but: mettre les trois autres utilement en communication.
Carta de Atenas
O provincionamismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela – e segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação consciente e feliz.
Fernando Pessoa

[Montijo]
aumentar
Perdoam-se os arquitectos, uns aos outros, entretidos com capas das revistas ou a fazer pela “vidinha”, perdoam-se os políticos, pelo viver habitual pátrio, perdoam-se os urbanistas, subtraídos à forma das cidades, perdoam-se os engenheiros, mais interessados em abrir as hiper-vias do futuro, perdoam-se os consumidores, que tudo devoram desde que tenha cachet, mas não se perdoam as cidades. E elas crescem pela corrente de qualquer coisa que não sabemos ainda entender bem. Não é da sociologia, nem da racionalidade pura da contagem dos minutos até ao centro da cidade, não é da arquitectura, porque já tudo é um pouco feio, não é da cultura, porque essa já é quase igual em todo o lado. Faltam-nos cidades civilizadas. Falta-nos a liberdade de poder dizer, aqui, e habitar aqui, sem razão aparente, apenas porque se gosta ou detesta e não porque nos condenamos a ser remediados e com a vida e as cidades adiadas.
Persistimos, técnicos e cidadãos, no total abandono, desleixo, com que desistimos das cidades. Reproduzem-se os mesmos "modelos", habituados, desadequados, envelhecidos, experimentados e negados, apenas porque há um “modelo”. Mas as cidades recusam um “modelo”. A história recorre ao sabor da irracionalidade do desejo e, o desejo de quem faz a cidade portuguesa, é pobre, infeliz e triste, e apresentado com o vigor com que o novo design de comunicação nos abraça em promessas de um futuro que faz esquecer o presente.
E a nossa modernidade, anacrónica e já fora da história, é um zonning obtuso, custeado por grandes pequenos médios promotores, complacentes arquitectos, passivos cidadãos, aos quais a política se submete. São as aspirações centrais e o jacuzzi e a hidromassagem sem tempo, mas com a esperança de que um dia, as novas acessibilidades restituam alguns minutos perdidos na ansiedade da viagem madrugadora – a 20 minutos de Lisboa, dizem. A nossa contemporaneidade é o abandono e o desamor da paisagem, o libidinal betão armado convertido rapidamente em ouro e em deserto.
Tudo a 5 minutos do centro da cidade – já só falta querer viver na cidade.
Labels: cidades, estrada nacional, portugal pós-moderno
3.3.08
1.3.08
do viver habitual: pobres, demasiado pobres
ÓRGÃOS NACIONAISTOTAL DE MEMBROS INSCRITOS NO CADERNO ELEITORAL – 14 512
TOTAL DE VOTOS EXPRESSOS – 1 937
PERCENTAGEM DE VOTOS EXPRESSOS – 13,3%
TOTAL NACIONAL
Lista A – 1 005 votos
Lista B – 316 votos
Lista C – 544 votos
Brancos – 61
Nulos – 11
No país da apatia, do remanso, da modorra do brando costume, sem espinha dorsal, porque haveriam os seus arquitectos ser excepção?
Extinga-se a Ordem dos Arquitectos.
Labels: corporação, portugal pós-moderno
28.2.08
Onde param os arquitectos portugueses?
Agora que se repetem as eleições para a Direcção Nacional da Ordem dos Arquitectos, é porventura importante perguntar onde tem parado os arquitectos portugueses nos tempos mais recentes.Quando há 10 minutos atrás se abateu o silêncio ensurdecedor sobre o facto do primeiro-ministro português assumir a autoria do que podem ser considerados crime estéticos e uma aberração cultural, pareceria lógico perguntar onde param os arquitectos portugueses.
Agora também urge perguntar onde eles param quando, numa espécie de projecção suicida das tendências vigentes entre a população portuguesa, é esperada uma participação de cerca de 15% nas eleições para a Ordem dos Arquitectos.
Falta de auto-estima da classe profissional? Falta de opções? Ou pura falta de interesse? Alguma coisa está certamente em falta.
Face a outras classes profissionais liberais que disputam árdua e publicamente aqueles que vão representar os seus destinos, os arquitectos portugueses espelham bem o estado corrente do país.
Não é de admirar que exista um absentismo absoluto. Com a explosão “democrática” dos cursos de arquitectura, os arquitectos deste país são hoje uma perfeita amostra demográfica do país que temos. E ainda bem.
Porém, o que é eventualmente mais grave é que, apesar da sua formação superior, os arquitectos podem, assim, estar a ecoar a cultura cívica – ou a crise social de que falava a Sedes – com que hoje contamos em Portugal.
Comecemos pela crise.
Não é de excluir a hipótese de que o absentismo eleitoral dos arquitectos se explica por razões bastante prosaicas.
A maior parte dos arquitectos, nomeadamente os mais jovens e desfavorecidos da classe não votam porque... não pagaram as quotas!
E porque é que não pagaram as quotas? Porque estão desempregados ou porque são tão mal remunerados que tem naturalmente que remediar outras necessidades mais básicas. Interessante, não é?
Isto sugere imediatamente que, se estão verdadeiramente interessados na participação eleitoral, os candidatos aos órgãos nacionais da Ordem dos Arquitectos deviam acordar um pacto de regime súbito: uma amnistia – ou, ecoando a extraordinária flexibilidade legislativa portuguesa, uma alteração estatutária temporária – para permitir que todos votassem nestas eleições.
Adiante. Subsistem ainda algumas outras possibilidades para justificar o absentismo geral dos arquitectos.
Também é verdade que muitos dos 16.000 arquitectos a que me refiro estão no estrangeiro. Face a uma tendência autofágica da classe arquitectónica portuguesa – que também lembra outra coisa qualquer – muitos dos arquitectos recentemente formados decidiram, pura e simplesmente, emigrar.
Isto é, o investimento e a permissividade do Estado na formação superior desta classe traduz-se, como já acontecia com cientistas e outras especializações de ponta, em exportação de cérebros ou de mão de obra competente, enquanto por aqui nos vamos lamuriando de desordenamento do território. Interessante, não é?
Esta é, aliás, uma resposta à questão que dá título a este artigo que combina perfeitamente com o equívoco ético e estético que recentemente envolveu o engenheiro civil José Sócrates.
De facto, para quê pagar o custo dos serviços, dos recursos humanos e da competência técnica nas quais o Estado investiu os impostos dos contribuintes, se ainda há por aí uns chico-espertos que dão conta do recado e da paisagem?
Os chico-espertos – que às vezes até são arquitectos pois, afinal, eles também “andem aí...” – saem mais barato, têm uns contactos na Câmara local que “facilitam a coisa” e até foram os primeiros a perceber que mais vale fazer o gosto ao dedo do cliente, que isto não está para modas.
Mas, perguntar-se-á então, a arquitectura não estava na moda?
Depois da celebração e da celebridade de Siza Vieira e de Eduardo Souto Moura, os arquitectos não deveriam andar por aí felizes da vida?
Não adquiriram prestígio social e profissional?
Não obtiveram reconhecimento no “estrangeiro”?
Não tiveram, nos últimos 15 anos, maior exposição mediática interna do que médicos, advogados e engenheiros?
Tendo eu realizado um doutoramento sobre a visibilidade da arquitectura em meios generalistas como o jornal O Público, posso assegurar que todas estas hipóteses são sustentadas e confirmadas por dados objectivos. À excepção, claro, da parte da felicidade.
Curiosamente, em Portugal, a celebridade, a projecção e o prestígio não fertilizaram o campo. Deve ser uma característica endógena. Ou o facto de, apesar das aparências, sermos um país estruturalmente pobre.
As circunstâncias mudam e as conjunturas também e, depois de uma prolongada ascensão demográfica e mediática, os arquitectos portugueses parecem, de novo, ter desaparecido para parte incerta.
Apesar das campanhas do “direito à arquitectura” – já agora, algum não arquitecto ouviu falar disto? – os portugueses ainda não parecem estar dispostos a pagar a mais-valia do serviço arquitectónico.
Isto também justifica a ausência dos arquitectos.
E donde vem o problema? Será que os portugueses não valorizam ou não podem valorizar a sua qualidade de vida ao nível de outros países europeus? Será que não podem, pura e simplesmente, pagar os serviços de um arquitecto preferindo assim entregar-se assim às competências dos chico-espertos? Será que têm de facto a sua própria cultura de gosto e preferem decidir por si? Ou será que a tabela de honorários dos arquitectos é desadequada à realidade do país? Ou serão as regras de mercado que estão a distorcer a oferta e a procura? Ou acontecerá, afinal, simplesmente, que os arquitectos deviam ser pagos por área a edificar e respectivo preço médio oficial de construção em vez de auferirem remunerações que flutuam com o preço final de obra – assim se acabando com muitos jogos de bastidores que prejudicam clientes e destinatários e assim se esvaziando também as distorções deontológicas que fazem com que seja um contrasenso económico para o arquitecto invistir tempo e recursos na redução de custos de obra do seu cliente?
Das mais gerais às mais prosaicas, estas, como muitas outras, são questões que justificam uma tomada de consciência e de posição dos arquitectos e dos seus legítimos representantes face à imagem que projectam de si próprios enquanto classe profissional.
Dado o contexto particular da nossa auto-proclamada “West Coast,” talvez os portugueses ainda não tenham percebido, de facto, qual o papel que a arquitectura pode desempenhar no seu dia-a-dia e na sua qualidade de vida colectiva.
Afinal, a maioria dos portugueses só sabem de longe da vã gloria dos centros culturais desenhados por arquitectos de “qualidade arquitectónica reconhecida” que, entretanto, tem as suas portas encerradas por faltas de verbas, programas e atractivos. E alguns mais iluminados só sabem que se tiverem dinheiro para investir em condomínios privados de luxo é bom que haja um “arquitecto de renome” envolvido.
Visto que assim já sabemos onde param os portugueses, onde param, entretanto, os arquitectos portugueses?
Onde param os candidatos a estas eleições da Ordem dos Arquitectos, esses que devíamos estar a ver e ouvir nos media de massa a exporem os seus programas, as suas opiniões públicas, as suas posições, as suas diferenças, as suas reflexões e proposições sobre o estado da prática da arquitectura em Portugal?
Onde param, neste preciso momento, as luminárias da arquitectura portuguesa, essas que prometeram mais intervenção crítica e social?
Onde param os críticos de arquitectura e os formadores de opinião, esses que, neste preciso momento, deviam estar a contrapor visões e perspectivas sobre o que precisa de mudar nos consensos excessivos em torno das vias únicas que actualmente caracterizam a arquitectura portuguesa?
E, para além dos emigrados, dos desenrascas e dos dignos representantes da geração rasca, onde param esses “ “jovens arquitectos” que constituem a maior parte dos arquitectos inscritos na Ordem e que agora se remetem, como é sua condição geracional mais vasta, a um silêncio comprometido com o status quo?
Por este andar, onde vão parar os arquitectos portugueses?
Pedro Gadanho
[via O Despropósito]
Labels: blogs, corporação, portugal pós-moderno













