fenomenologia da marquise#2

Définition du mot :
marquise

Nom féminin singulier
femme d'un marquis
(architecture) auvent vitré qui protège de la pluie
(joaillerie) bague à chaton oblong
fauteuil à deux places
(pâtisserie) gâteau voisin de la charlotte

Le Dictionnaire



marquise | s. f.
marquise

do Fr. marquise
s. f.,
varanda ou compartimento envidraçado.



Cultura pode até ser descrita simplesmente como aquilo que torna a vida digna de ser vivida.

T.S. Eliot, Notas para uma Definição de Cultura



mariazinha, deixa-me desmanchar a tua marquise!


António Machado




As marquises serão o último reduto de apropriação do espaço e da arquitectura por parte de quem os habita. Da teia legislativa que hiper-regula a construção de um edifício singelo – mas deixa ao abandono a pressão especulativa dos promotores – à paupérrima cultura da maior parte do edificado; da vontade indómita do arquitecto pressurosamente ilustrado, ao remedeio civilizacional do promotor e construtor, sobra para o habitante uns quantos metros quadrados de liberdade.
A arquitectura, também como escolha política, porque divide o espaço de maneira consequente com determinada representação do mundo, será sempre o lugar do desejo.
Depois de uma compartimentação tipológica minuciosamente detalhada para um quotidiano distraído, burocraticamente administrado pelo RGEU e economicamente subordinado às “mais-valias” do promotor, a varanda expia o mal-estar de uns poucos de restos do dia-a-dia. Um pequeno, mínimo, escritório que ali se poderá montar, um sítio, finalmente, para as máquinas que a produção capitalista “inventa” para facilitação da vida – e da alimentação da própria produção capitalista – que, não sendo “bonitas”, - uns monos brancos com uns buracos a meio - se recolhem aos 2,5m2 excluídos da perspectiva da sala ou da cozinha e que destoa na fotografia da auto-representação do habitante. E na cultura do quotidiano apressado elide-se o desejo de “ir para a varanda” [cf. série “Vamos hoje para a varanda?” de Maria Inês de Almeida no Corta-Fitas], o desejo de um momento em que a domesticidade e privacidade do interior da casa poderá encontrar-se com a atmosfera da cidade, sem perda do recolhimento e da privacidade.
O caso da marquise ultrapassa a questão estética, ética e moral. A marquise não é boa nem má. Não é bonita nem feia. Será apenas um constrangimento(quase) existencial. Quando as necessidades, mesmo as mais ínfimas, da vida não encontram lugar na arquitectura. Ou quando a arquitectura não seja capaz de se abrir à vida.

Dessa abertura disse-nos Alvar Aalto: I see it as a very positive manifestation that the artist is in a sense denying himself by going outside of his traditional sphere of work, that he is democratizing his production and bringing in out of a narrow circle to a wider public. The artist thus steps in among the people to help create a harmonious existence with the help of his intrusive sensibility, instead of obstinately upholding the conflict between art and non-art which leads to acute tragedies and a hopeless life. [Sketches, Alvar Aalto].
E Manuel Tainha, provavelmente em evocação à marquise da Brandoa, no Cais-do-Sodré:


[Agência Europeia de Segurança Marítima/Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, Manuel Tainha, Lisboa]


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  1. Cesar Branco 9.1.09

    "à paupérrima cultura da maior parte do edificado", melhor: "à paupérrima cultura da maior parte do eleitorado"

     
  2. AM 9.1.09

    ah, ah, ah :)
    o dicionário, o T.S.Eliot e odp!!! :)))
    adorei a foto do taínha
    (mas não o tainha)
    sítios excepcionais merecem arquitecturas excepcionais...