construir, habitar, pensar


lote3, Angra do Heroísmo, 2003.2006

| joão amaro correia | 28.5.07 |   |

swinging london

Tímida chuva de uma cidade organicamente viva. Tudo flui. Voa a 1mm do chão, plano – em Manhattan é mais rápido e vasto, a liberdade é maior e densa. E é no chão plano que se mergulha fundo numa teia de canais que se sobrepõem. Térmitas que roem a madeira à procura de alimento. O caminho mais rápido.
O restaurante italiano e o empregado – italiano de passaporte – nascido em Marrocos, em Melila, cidade administrada por Espanha. A cumplicidade gastronómica de quem vem do sul. O peixe e os amigos que deixou em Lisboa. A recomendação para que numa próxima descida ao Tejo prove os Peixinhos da Horta – com bom azeite.
E à mesa contam-me do “melhor martini do mundo”, a troco de £15. Gin, aspergido com martini e humidificado com casca de limão golpeada transversalmente. BHL, Obama, Osama, Sarkozy, Sócrates.
A pint. O Thames. A forca, memória da antiga justiça do monarca executada pelas mãos rudes dos estivadores e marinheiros. Wapping é agora a recuperação dos armazéns para habitação da classe média.
A cool Britannia fecha cedo. 23 horas e as St. Katharine Docks estão desertas. Um jardim, agora, antigo cemitério. Ontem um homem almoçou uma sandes sentado numa campa. Enterrem-se os mortos e cuide-se dos vivos.


St. Paul’s de Sir Christopher Wren e das distantes aulas de História da Arquitectura guiadas por leitura integral pelo Panorama da Arquitectura Ocidental de Nikolaus Pevsner. A City atrás. Vazia à noite, apressada e concentrada de dia. Sucede-se a massificação e nivelamento do paladar: Pret a Manger; Starbucks; Costa Coffee; Nandos. O símbolo, McDonald’s é, curiosamente, o ausente. Ou o menos presente. Sabe igual almoçar em Tóquio, Nova Iorque, S. Paulo ou Londres. Pelo menos para quem te pouco tempo e muita pressa em ganhar o dia.
Trafalgar Square e o nó do turista. Japoneses de máquina em punho. Casas de banho públicas impensáveis para um homem do sul: limpas e asseadas. E bonitas.
A National Gallery é só mais um compasso na inevitável valsa do consumo. Não há tempo, não há tempo. E cada obra carece de mais tempo. Os novos museus, os novos visitantes dos museus: compressão do espaço e do tempo. Vê-se porque se diz que se viu. O Diabo não mora nos detalhes: mora no Google.
Venturi na ala nova. Sancas pop. Cenário anos ’80. Não é complexo nem contraditório. É uma espécie de nostalgia cartoon.
Mais à frente e a Fopp e os discos mais baratos. Covent Garden e a disneylandização das cidades. É o preço a pagar pela limpeza das ruas?

Tate Modern, um armazém tornado ícone. Não fora o marketing e aqueles acabamentos seriam um crime lesa boas consciências críticas. A vista? Londres não tem vista. Não tem acontecimentos. Tem edifícios que se distribuem por uma geografia invariável. Em Londres não se é ao ver. Londres e o seu labirinto.
A arquitectura do poder. 30 St Mary Axe vê-se de todo o lado. Foster, Sir Norman, omnipresente: City Hall, e democracia transparente e cinzenta da cor do aço, do vidro e do betão , Millennium Bridge e a gratuita exaltação tecnológica, Great Court at the British Museum e a simbólica da sua consagração, Wembley Stadium e o reconhecimento no pub.

Regent’s Park, Regent’s Crescent. John Nash e actriz que ali viveu e leva a Gilbert & Sullivan. Dikens morreu ali ao lado. Um pouco antes da cristalização do gossip no Madame Tussaud's: turistas e fast food.
Piccadilly Circus foi na swinging London, foi no meu Blow Up. Hoje é o restaurante, cadeia, onde Litvinenko jantou o último sushi contaminado com polónio 210. Somos envenenados pela cidade.
Waterstone's leading bookseler e a inveja das livrarias de 5 andares. Waterstone's e os anúncios dos romances do próximo verão que já estão massivamente patentes nos escaparates.

Vibrante cidade de comunidades. Do supermecado paquistanês, das lojas de Brik Lane, dos restaurantes asiáticos, onde Índia, Paquistão e Bangladesh nos baralham o paladar.
Simon Rattle, camisa fora das calças e a pequena excentricidade no conservador meio operático. Pelléas et Mélisande e uma triste cenografia para uma direcção musical brilhante. O rei Arkel, Robert Lloyd, a gorda velha ao meu lado, Doris Day e James Stewart sob a medalha da rainha.
A Spectator e a fortuna da direita portuguesa.
Futebol por todo lado. Ronaldo e Mourinho nos jornais e nas camisolas. No pub.
Em Camden, onde outrora no future, constróem-se agora identidades patrocinadas pela indústria. Portobello Road rendida aos encantos do dinheiro da burguesia de Chelsea.

Canary Wharf e a expropriação do espaço público. O controlo. Onde só se entra depois da certeza de inocência face às susbtâncias do terror. Canary Wharf e a circulação asséptica. Cidade passagem. Cidade onde se faz o comércio do ser. Cidade onde se passa. Onde talvez se esteja. Cidade onde, em qualquer caso, nunca se será.

Catchall London é o cheiro a caril e a sandes rápidas e informais e a jovem mulher com a burqa – imagens familiares da televisão global. Nada se estranha, aqui, onde tudo ficava à distância do comando remoto. O império é onde tudo e todos se misturam.

| joão amaro correia | 23.5.07 |   |