inch of nature


E o que é real só o é por uma vez
E num só lugar

[T.S. Eliot, Quarta-Feira de Cinzas]

| joão amaro correia | 30.7.08 |   | / / /

in utero

[...] a escrita é inicialmente a fala de alguém ausente, o abrigo é um substituto do útero materno, a primeira morada, provavelmente desejada ao longo de toda a vida, onde o homem se sentia bem e seguro.



[Sigmund Freud, O Mal-Estar na Civilização + Hieronymus Bosch]

| joão amaro correia | |   | /

arké/psyché#3 - o contentor original e a forma literal


The Dogon people live in mud-brick houses, with some that look like a giant sand castle, and very often have a flat roof so they can sleep on their roofs during the scorching summer. The village, is consists of many houses, shaped of a human body.

The Dogon Tribe

| joão amaro correia | 28.7.08 |   | / /

arké/psyché#2

Podemos acrescentar aqui o interessante caso da busca da felicidade na contemplação da beleza, onde quer que ela se apresente aos nossos sentidos e ao nosso juízo, a beleza das formas e gestos humanos, de objectos da natureza e paisagens, de criações artísticas e mesmo científicas. Esta atitude estética em relação ao sentido da vida oferece pouca protecção contra a ameaça do sofrimento, mas serve em grande medida como sua compensação. O prazer proporcionado pela beleza reveste-se de uma qualidade perceptiva peculiar, levemente embriagante. Não é claro qual seja a utilidade do belo nem a sua necessidade civilizacional, e no entanto não podia deixar de estar presente na nossa cultura.

Sigmund Freud, O Mal-Estar na Civilização

| joão amaro correia | |   |

arké/psyché

Se pretendemos representar espacialmente a sucessão histórica, só o podemos fazer por uma justaposição no espaço; o mesmo espaço não pode ser ocupado por duas coisas distintas ao mesmo tempo. A nossa tentativa parece um jogo ocioso; a sua justificação é apenas esta: mostra-nos como estamos longe de abarcar numa imagem todas as características da vida mental.
Temos ainda que responder a uma objecção. Poderá perguntar-se por que razão escolhemos precisamente o passado de uma cidade como termo de comparação com o passado mental. A suposição de que todo o passado e conservado só é válida também para a vida mental apenas na condição de que o órgão da psique permaneça intacto, de que o seu tecido não seja danificado por traumas ou inflamações. No entanto, as influencias destrutivas equiparáveis àquelas causas patológicas estão sempre necessariamente presentes na história de qualquer cidade, mesmo de uma cidade que, como Londres, praticamente nunca foi invadida por inimigos. O desenvolvimento perfeitamente pacífico de uma cidade inclui a demolição e substituição de edifícios, e é por esta razão que o exemplo de uma cidade não é apropriado para a comparação com um organismo mental.


Sigmund Freud, O Mal-Estar na Civilização

| joão amaro correia | 21.7.08 |   | / /

vaguely urban



[Unité, Tom Sachs, 2001]

via Antitect

| joão amaro correia | 16.7.08 |   | / /

um homem propõe-se a tarefa de desenhar o mundo. [...] *


O mistério em Borges é tudo relacionar-se com tudo, mesmo além da roda dos astros, mesmo aquém do nosso entendimento. Em O Fazedor cita Suaréz Miranda, Viajes de varones prudentes e um antigo e vasto Império que desenvolveu a técnica da representação do território que lhe pertenceria. “... Naquele Império, a Arte da Cartografia conseguiu tal perfeição que o mapa de uma só Província ocupava toda uma Cidade e o mapa do Império toda uma Província.” A representação mensurável. Somos a medida do nosso mapa e o mapa a nossa medida. Os Mapas Desmesurados deslumbram. Não pelo rigor ou pelo realismo - essa paixão fútil pela aparência das formas – antes pela justa medida do que representam. Um Império do tamanho de uma Cidade, ou uma Cidade que coincide com a medida da Província que rege.
Mas os Mapas Desmesurados insatisfazem o espírito minucioso dos agrimensores e dos velozes geómetras. Estes anseiam o rigor da aparência. Mesmo que a custo da relação da coisa, da experiência da coisa, do seu significado. Como laboram no erro estes cientistas ansiosos. Nem sempre a razão está com Galileu.

[...] Pouco antes de morrer descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem do seu rosto.*


* O Fazedor, Jorge Luís Borges

adenda: E HOU SE OF_C ARDS, dos Radiohead. Sem uso de câmara ou de luz. Apenas informação, dados captados por scanners laser, transformados em imagens. Nem a luz permite responder à inquieta necessidade de uma representação mimética do real. Ferramenta desolada.

| joão amaro correia | 15.7.08 |   | / /

revelação

O templo, no seu estar-aí [Dastehen] concede às coisas o seu rosto e aos homens a vista de si mesmos.

Martin Heidegger, A Origem da Obra de Arte


O filme leva-nos a Mopu. O filme é sobre Mopu. O filme é Mopu. Cidade remota, na base dos Himalaias, onde “as crianças são como as crianças doutros lugares, as mulheres são como as mulheres doutros lugares e os homens são como os homens doutros lugares”. O que é diferente é Mopu.
As privações de um lugar a 2700m de altitude que resgata o que de mais humano existe em cada homem. É o lugar que habita os habitantes. As mãos e as faces maceradas pela carência do mundo onde este é mais vasto. E nós, homens, mais pequenos.
Onde melhor o homem e as coisas se revelam.

[Michael Powell, Black Narcissus, 1947]

| joão amaro correia | 12.7.08 |   | / / /

arquitectura explicada às crianças*


"O novo Museu Nacional dos Coches será um edifício com cerca de 12 mil metros quadrados, 14 metros de altura, uma geometria algo abstracta e paredes essencialmente brancas - o branco do casario de Lisboa, nas palavras do arquitecto Ricardo Bak Gordon."

Público, 09.07.2008

*após Jean François Lyotard

| joão amaro correia | 10.7.08 |   | / /

notas do eterno retorno


Da(s) memória(s) das coisas.
A História, a viajem, os vestígios do tempo e do espaço que as coisas transportam.
Como o ukulele, do Minho à dança hula, (Tiago Hespanha), o pão-de-ló, de Aveiro a Tóquio, (André Godinho), do quotidiano de que lhe não reconhecemos o princípio. Talvez aqui tão perto.

Distância e Proximidade, Tão Longe / Tão Perto

nota: Repete em Outubro, no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian.

| joão amaro correia | 7.7.08 |   | / /

4th of july


We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness. — That to secure these rights, Governments are instituted among Men, deriving their just powers from the consent of the governed, — That whenever any Form of Government becomes destructive of these ends, it is the Right of the People to alter or to abolish it, and to institute new Government, laying its foundation on such principles and organizing its powers in such form, as to them shall seem most likely to effect their Safety and Happiness.
[...]

The unanimous Declaration of the thirteen united States of America

[American flag, Robert Mapplethorpe, 1987]

&

| joão amaro correia | 4.7.08 |   |

demissão/omissão no espaço público

Via Pedro Magalhães, Lisboa S.O.S.

| joão amaro correia | 2.7.08 |   | /

o nome do que é


A propósito dos nomes, do mosaico “Eu sou o que Sou”, Borges menciona o pensamento mágico de alguns povos primitivos para quem o nome – revelado ou não – transportava não apenas um símbolo do homem mas antes era "parte vital" do homem. Como se fosse o nome o que é.
Como arquitectura e a revelação dos lugares, das coisas, e dos homens no mundo, o nomear poético arquitectónico é mais um vínculo – ontologia – dos homens com o mundo, do mundo com os homens, das coisas em geral. Muito para além de arbitrária mediação simbólica, a arquitectura como dimensão da substância existencial.

| joão amaro correia | |   | /

Iowa River


Floating Steven Holl.

Via Architectural Scholar.

| joão amaro correia | |   | /

desaparecimento


Le monde est fait pour aboutir à un beau livre.

Mallarmé


Não interessa a cosmogonia deste aforismo. O universo como um livro perante os nossos olhos impacientes de conhecimento. Interessa mais a fina deslocação ética. O amor à fixação e à passagem infinita da história, pelos homens circunstanciais. O recolhimento subtil das coisas, e nomes, que se juntam em folhas.
Como arquitectura. Que recolhe, hábil, violenta e delicada, as circunstâncias dos homens, dos lugares, do tempo, na sua forma. Que re-significa o que já é. Que o torna – transforma – noutro ser. Que faz, labora, o ser do que ainda é potência. Que abre em si outro(s) mundo(s) através da incisão severa que opera no mundo. Ela própria representação do mundo.

| joão amaro correia | 1.7.08 |   | /