portugal pós-moderno

O presidente da Ordem dos Arquitectos, João Belo Rodeia, sente "muito orgulho" no nome escolhido pelo júri multidisciplinar do Prémio Pessoa, que "traduz bem a importância que a profissão tem como um dos principais recursos de afirmação do país". "Estes prémios são de todos os arquitectos."

Público, 13.12.2008


As pessoas contentam-se demasiado depressa com um círculo restrito que se formou e estabilizou - e se reproduz - há já demasiado tempo.

Pedro Gadanho, ARTECAPITAL



Perante os equívocos da atribuição do Prémio Pessoa ao arquitecto Carrilho da Graça – pela carreira?, pela arquitectura?, pelo homem? - , o mais intrigante será o afadigamento da corporação em estende-lo a “todos os arquitectos”. As afirmações do bastonário assim o confirmam, e o premiado, num momento de magnanimidade, o exprimiu. Mas andamos uns quilómetros pelo território português e a realidade, catastrófica, diz-nos qualquer coisa de diferente deste optimismo radical que exala da imprensa do último fim-de-semana sobre a qualidade dos “arquitectos portugueses”, (categoria em que este vosso humilde escribanita se inscreve). Mas para além das tocantes banalidades produzidas pelo júri, importa deixar assentar a poeira sobre o que é a obra de Carrilho da Graça e o pensamento que lhe subjaz.

Uma fugaz retrospectiva ao percurso de Carrilho da Graça é indissociável do movimento geracional em que se insere. A geração de 80 [Manuel Graça Dias, Carrilho da Graça, Belém Lima, Eduardo Souto Moura, Adalberto Dias, etc.] teve efeito na interrupção da contenção formal e no curso ideológico que até então dominavam a prática da arquitectura, ainda fixada no horizonte da revolução de 74. A descomplexada ruptura face às gerações anteriores reflectia o desejo e o eclectismo de novas linguagens. No essencial, um grupo heterodoxo de arquitectos que propunha o corte com a geração anterior pela negação do “espírito de missão” do Movimento Moderno e pela recusa da gravidade dos termos e do discurso arquitectónico. Bem ao sabor do espírito do tempo aceitam-se decomplexadamente os valores do prazer, da moda, da ironia, e do experimentalismo de materiais e cor. Carrilho da Graça filiar-se-á numa tendência que recusa a manipulação fortuita de imagens e do vocabulário histórico da arquitectura, e entrincheirada no necessário rigor na leitura do lugar e das arquitecturas, ainda que distante das metodologias de releitura da tradição e do vernáculo, se se quiser, do contextualismo. Erradamente se excluem da Escola de Lisboa figuras tutelares. Manuel Vicente, Vítor Figueiredo, Hestnes Ferreira, Pancho Guedes, Luís Cunha, Taínha ou (ainda) o Teotónio Pereira, obrigado António, sendo que a Carrilho da Graça interessará mais a releitura do cânone modernista e a prossecução desse projecto totalitário do que o pluralismo e o compromisso intrínseco à arquitectura, protagonizado, por exemplo, por Manuel Vicente (há que mencioná-lo – não lhe escapamos, Lourenço).
Mas o pensamento de Carrilho da Graça, o desejo radical da abstracção, a confiança no purismo formal do modernismo, algumas investigações sobre o território e a paisagem, ainda que excluídas de qualquer inclinação nostálgica, arrisca um assoberbado desejo de mediatização que decorre do autoritarismo que esse desejo de “pureza” induz, em perda com o real.
Reportando-nos ainda à mesma geração, estamos em crer que o trabalho de Manuel Graça Dias, quer como pensamento concretizado, quer como protagonista da divulgação da disciplina, será muito mais profícuo e profundo. Desde logo porque ensaia uma permanentemente articulação da reflexão disciplinar com a realidade e com o contexto de uma certa forma de ser (e construir) em português. E depois, porque esse compromisso ético e estético é inclusivo e não exclusivista, como o é o de Carrilho da Graça. Fora o Prémio Pessoa um prémio de arquitectura, [e não outra coisa qualquer que se não entende bem], a pertinência crítica de Manuel Graça Dias e o seu compromisso cosmopolita com a geografia humana e natural portuguesas seriam certamente de mais útil divulgação que alguma inocuidade estética que atravessa o trabalho de Carrilho da Graça. Ou, como com meridiana clareza nos diz Adolf Loos, nos idos de 1899, “a arte e a realidade complementam-se uma à outra de forma pacífica. Mas por cá continua a dizer-se: Arte versus realidade!”.

Quanto ao embriagante perfume de sucesso com que a Ordem dos Arquitectos celebrou este prémio, apenas lhes desejo um passeio para lá do Campo Grande. E que confirmem os méritos desta classe dedicada ao ofício de construir. Porque os méritos e carreiras assinaláveis devem-se apenas a um esforço de perseverança individuais e não a um movimento colectivo, (classista?, corporativo?), mumificado e paralisado em anacrónicas e incultas produções.


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  1. Cesar Branco 16.12.08

    isto so' se resolve quando te candidatares a presidente da ordem dos arquitectos, e disseres ao que vens