lugares, cidades, identidades


isto é o bairro
excitante bairro
distante bairro
alucinante
isto é o bairro
excitante bairro
distante bairro
apaixonante

isto é o bairro
excitante bairro
está no sangue
na vida, apaixonante
movimento
gajos ficam fora 24horas do andamento
bairro
excitante bairro
corre no sangue
a vida e a morte alucinante
bairro
movimento, andamento
gajos ficam fora, mas de dentro

aqui encontra profetas, poetas
pensadores revolucionários
como o Mário Viegas,
estranha forma de vida
aqui por entre as vielas
isto é o bairro
aqui ninguém é piegas, hey
todas as noites temos barricada
estrada cortada
enquanto a Foz está bem policiada
aqui encontras tudo e não encontras nada
branca, castanha,
beat boys, goe’s e street boys,
pitbulls, rottweilers e red skins
gunas, carros kitados, grandes colunas,
fanáticos de futebol, ultras de Portugal
de cachecol
na mala um taco de basebol
vejo fora nas ruas que apanham mocas com putas
fogem da bófia e carros patrulha
vejo políticos no jogo, no roubo,
vejo o meu povo
mas nunca vi ruas pavimentadas oh

pj’s, rusgas os gangs, o sangue
rixas dos ninjas
saltam das carrinhas




Como expressão cultural o hip-hop e o rap decorre das ruas. Tem origem num contexto urbano pós-industrial, em bairros de rendimento, onde as perspectivas das gerações mais novas seriam tão largas como a extensão do ghetto. Está associada a uma cultura de resposta à repressão que muitas vezes a renovação urbana compreende, à deterioração das condições que, em determinadas zonas, acompanhou a desindustrialização. A exclusão é urbana, só depois social. Daqui ao fechamento das comunidades sobre si mesmas, resguardadas pela espessura do ressentimento e do ódio, o salto é ínfimo e evidente.
É, portanto, o hip-hop um discurso do e no espaço público, independentemente da linguagem desse discurso, que é, genericamente, crua.
Não sendo observador do fenómeno, calhou em zapping de insónia apanhar na (inenarrável) MTV-Portugal o vídeo de Ex-Peão, Bairro. O vídeo chega-nos como um documentário, uma digressão por um bairro degradado do, (presumivelmente), Porto. Já este ano em França se assistiu ao fenómeno do vídeo Stress, dos Justice, que serviu de pano de fundo a um debate em volta da violência das imagens e dos porquês dessas imagens, ou antes, o que originará essa estética crua do ressentimento.
As primeiras imagens - degradação urbana, o puto com o dedo médio apontado à câmara, como uma saudação de boas-vindas ao que aí vem – são carimbadas com códigos de barras, como que a marcar a uniformização, massificação, dos costumes e comportamentos, inevitáveis da sociedade de consumo. A própria marginalidade – no sentido cultural – é trazida ao mainstream da comercialização massificada. Seguem-se planos de um urbanismo legitimado pelo selo modernista: torres exclusivamente habitacionais, distantes umas das outras, separadas por impossíveis “zonas verdes”, ruas largas, dimensionadas para o automóvel.
O rapper inicia o seu discurso, contraponto às imagens da pobreza e exclusão. Elegíaco da ordem das ruas, apaixonado, o poema do MC, serve ao mesmo tempo de denúncia e interrogação aos fenómenos marginais – no sentido social – que fazem o quotidiano do bairro.
Antes da falência dos modelos de inclusão social, de que vamos tendo notícia diária, a falência é do urbanismo. A ghettização social decorre da compartimentação [zonning] da própria vida a que este desenho urbano conduz. A vida é, aqui, na rua, nas galerias de distribuição dos edifícios, nos percursos distantes entre cada edifício, num soçobrar da diferença entre o doméstico, privado, e a esfera pública. Ao invés de ruas tradicionais, com passeios suficientemente largos para albergar uma vida comum, as ruas ou são intersticiais ou de perfil via-rápida.
O espaço público deixa de ser suporte de um habitar seguro, mutuamente vigiado. São sórdidas fendas entre edifícios divididos como torres rivais. O espaço público é ainda o território da afirmação de discursos. Já não pelas palavras, mas pela 6.35.


[Bairro, Ex-Peão, 2008]

p.s. A transcrição do poema foi feita de ouvido. Contém imprecisões.


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  1. Maria Inês 17.12.08

    tenho que confessar que acho uma certa piada a justice. sobre o vídeo em questão não me pronuncio, porque nunca vi.
    bj

     
  2. alma 17.12.08

    As insónias pelos vistos fazem bem !
    muito obrigada pela sua gentileza vou procurar...
    gosto da sua coragem ao afirmar-se católico :)

    quanto aos desafortunados penso que em parte deve-se a uma enorme dificuldade em gerir a ignorância de quem projecta regula e acompanha... sinto o maior respeito por quem tem de viver nesses bairros .

     
  3. alma 17.12.08

    devia-se voltar ao antigamente onde os ricos e pobres conviviam lado a lado !

     
  4. joão amaro correia 17.12.08

    maria inês, o vídeo dos justice está aí linkado. e não, eles não têm piadinha nenhuma.

    alma, não sei onde é que é preciso coragem para me dizer católico. não somos um país 99% católico? so they say.

     
  5. Cesar Branco 18.12.08

    uiii... e' preciso uma coragem para se afirmar catolico

     
  6. alma 18.12.08

    LOL aceito a minha ingenuidade !em terra de mouros todo o cuidado é pouco...