falha humana - vigiar e punir

Creio que o erro possa ser o derradeiro antídoto ante qualquer deriva totalitária. Capitalista ou socialista, haverá provavelmente sempre uma tentação de poder, aniquiladora das diferenças e divergências individuais e sociais. Ou o mercado que propõe a homogeneização dos comportamentos, tendo em vista o lucro maior; ou o Estado, paternalista e autoritário, que pretende o nosso bem-estar a partir de qualquer uma utopia colectiva. A falha humana será talvez o último território que contrarie estas lógicas destrutivas e que nos privam da liberdade plena. A partir da falha, do desvio, do erro, cada homem constrói-se à margem de qualquer autoridade exterior. De qualquer moral imposta a ferros que tenha como fim o controlo de qualquer obstáculo que impeça esse obscuro masterplan. É dessa fresta, entre o certo e o errado, entre o conhecimento e a ignorância de si próprio, que deriva o desejo, a vontade, a mais insondável aspiração de cada um de nós. É a zona interdita à observação microscópica e que refuta qualquer veleidade intransigentemente positivista.
É aqui THX1138.
A especulação de THX1138 manifesta-se na hipótese extrema de uma sociedade onde os nomes sejam substituídos por catálogos, os afectos dissolvidos em pílulas que os contrariam como se fossem vírus mortais em colisão com a ordem, onde a ausência de paixões e inclinações não contamine a concentração máxima exigida para que o indivíduo seja não mais que uma peça do dispositivo da produtividade total – ainda não máquinas, esses são aqui os polícias dos comportamentos morais e socias - onde o desejo, o sexo, seja ausente, nem como forma de propagação da espécie - o Estado encarregar-se-á de velar pelo número de nascituros necessários à manutenção do status quo, os cabelos rapados, a indumentária única – de um branco doentio. Infinito Big Brother que vasculha no mais precioso da nossa intimidade, que vigia a capacidade moral do indivíduo - encapsulado na unichapel que o Estado vigia e domina. Obsceno admirável mundo novo.

Assombrosa é a representação do lugar desta sociedade. O branco asséptico das habitações, despojadas de qualquer traço de individualidade e do habitar do sujeito, os espaços públicos de um cinzento neutro, pano de fundo onde se dissolve qualquer desvio que ponha em causa a ordem. A exploração e a investigação sobre as formas do habitar que culminam na prisão. Onde o ser não é autorizado a ser permitindo-se-lhe um submisso e insano estar. O branco infinito, homogéneo, sem limites, sem muros, sem paredes e sem divisões, sem qualquer murmúrio de arquitectura a partir da qual seja possível uma existência construída por cada um. Apenas o desamparo de cada um entregue a si próprio no nada.

Mas a fuga é possível. Pela recusa do comprimido obrigatório, pelo irromper violento do amor e do sexo, que conduzem o indivíduo, THX1138, ao desespero e à destruição daquilo que a partir daí se tornou o motivo de perplexidade no que resta de humanidade, a sua companheira LUH3417.
Há a fuga. Mas não é mais possível a redenção.

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[THX1138, George Lucas, 1971]


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