estrada nacional#15

Mas eu amo este país mais do que todos os outros,
Tanto é que aqui estabeleci a minha morada.

Ovídio

La zonage, en tenant compte des fonctions clefs: habiter, travailler, se récréer, mettra de l’ordre dans le territoire urbain. La circulation, cette quatriéme fontion, ne doit avoir qu’un but: mettre les trois autres utilement en communication.

Carta de Atenas

O provincionamismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela – e segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação consciente e feliz.

Fernando Pessoa


[Montijo]
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Perdoam-se os arquitectos, uns aos outros, entretidos com capas das revistas ou a fazer pela “vidinha”, perdoam-se os políticos, pelo viver habitual pátrio, perdoam-se os urbanistas, subtraídos à forma das cidades, perdoam-se os engenheiros, mais interessados em abrir as hiper-vias do futuro, perdoam-se os consumidores, que tudo devoram desde que tenha cachet, mas não se perdoam as cidades. E elas crescem pela corrente de qualquer coisa que não sabemos ainda entender bem. Não é da sociologia, nem da racionalidade pura da contagem dos minutos até ao centro da cidade, não é da arquitectura, porque já tudo é um pouco feio, não é da cultura, porque essa já é quase igual em todo o lado. Faltam-nos cidades civilizadas. Falta-nos a liberdade de poder dizer, aqui, e habitar aqui, sem razão aparente, apenas porque se gosta ou detesta e não porque nos condenamos a ser remediados e com a vida e as cidades adiadas.
Persistimos, técnicos e cidadãos, no total abandono, desleixo, com que desistimos das cidades. Reproduzem-se os mesmos "modelos", habituados, desadequados, envelhecidos, experimentados e negados, apenas porque há um “modelo”. Mas as cidades recusam um “modelo”. A história recorre ao sabor da irracionalidade do desejo e, o desejo de quem faz a cidade portuguesa, é pobre, infeliz e triste, e apresentado com o vigor com que o novo design de comunicação nos abraça em promessas de um futuro que faz esquecer o presente.
E a nossa modernidade, anacrónica e já fora da história, é um zonning obtuso, custeado por grandes pequenos médios promotores, complacentes arquitectos, passivos cidadãos, aos quais a política se submete. São as aspirações centrais e o jacuzzi e a hidromassagem sem tempo, mas com a esperança de que um dia, as novas acessibilidades restituam alguns minutos perdidos na ansiedade da viagem madrugadora – a 20 minutos de Lisboa, dizem. A nossa contemporaneidade é o abandono e o desamor da paisagem, o libidinal betão armado convertido rapidamente em ouro e em deserto.
Tudo a 5 minutos do centro da cidade – já só falta querer viver na cidade.


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  1. AM 18.3.08

    um dia, à saída da ponte Vasco da Gama virei para aí, para os lados de um desses Shoppings modernos da margem sul (vulgo deserto)
    a coisa é do mais... é de mais...
    é de pasmar...

     
  2. AM 18.3.08

    a boca da "capa de revista" é para o Lourenço?...

     
  3. joão amaro correia 19.3.08

    para o lourenço? não, porque raio haveria de ser?
    não. é para nós e para a nossa "ordem". e afins.

     
  4. AM 20.3.08

    pela posta com a capa da time...
    sem ofensa ("respect"!) para os presentes ou os ausentes

     
  5. joão amaro correia 20.3.08

    só percebi a piada depois.
    o lourenço não leva a mal.
    pois não lourençooooo?

     
  6. Lourenço Cordeiro 24.3.08

    Não levo não. Mas vou insistir até à vitória final para que os meus amigos em geral e o mundo todo em particular reconheçam Frank Lloyd Wright como o melhor arquitecto da história (seguido de perto por Alvar Aalto, mas esse era finlandês e ser finlandês é dopping, pelo que não conta).

     
  7. Lourenço Cordeiro 24.3.08

    Foda-se! Mas o que é este «approval», caralho? Isto é o gabinete do primeiro ministro ou quê? Foi para isto que fizemos o Maio de 68?

     
  8. joão amaro correia 24.3.08

    neste estaminé não reina a democracia. reino apenas eu. mas tu és bem vindo. traz amigas. boas.